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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

23
Abr16

D.M.L - " A Revolução da Bondade "

João Jesus e Luís Jesus
"Acho que a grande revolução, e o livro «Ensaio sobre a Cegueira» fala disso, seria a revolução da bondade. Se nós, de um dia para o outro, nos descobríssemos bons, os problemas do mundo estariam resolvidos. Claro que isso nem é uma utopia, é um disparate. Mas a consciência de que isso não acontecerá, não nos deve impedir, cada um consigo mesmo, de fazer tudo o que pode para reger-se por princípios éticos. Pelo menos a sua passagem pelo este mundo não terá sido inútil e, mesmo que não seja extremamente útil, não terá sido perniciosa. Quando nós olhamos para o estado em que o mundo se encontra, damo-nos conta de que há milhares e milhares de seres humanos que fizeram da sua vida uma sistemática acção perniciosa contra o resto da humanidade. Nem é preciso dar-lhes nomes. "José Saramago, in " Folha de S. Paulo, Outubro 1995"
23
Abr16

D.M.L - "O Maior amor e as coias que se ama"

João Jesus e Luís Jesus
"Tomara poder desempenhar-me, sem hesitações nem ansiedades, deste mandato subjectivo cuja execução por demorada ou imperfeita me tortura e dormir descansadamente, fosse onde fosse, plátano ou cedro que me cobrisse, levando na alma como uma parcela do mundo, entre uma saudade e uma aspiração, a consciência de um dever cumprido.Mas dia a dia o que vejo em torno meu me aponta novos deveres, novas responsabilidades da minha inteligência para com o meu senso moral. Hora a hora a (...) que escreve as sátiras surge colérica em mim. Hora a hora a expressão me falha. Hora a hora a vontade fraqueja. Hora a hora sinto avançar sobre mim o tempo. Hora a hora me conheço, mãos inúteis e olhar amargurado, levando para a terra fria uma alma que não soube contar, um coração já apodrecido, morto já e na estagnação da aspiração indefinida, inutilizada.Nem choro. Como chorar? Eu desejaria poder querer (desejar) trabalhar, febrilmente trabalhar para que esta pátria que vós não conheceis fosse grande como o sentimento que eu sinto quando n'ela penso. Nada faço. Nem a mim mesmo ouso dizer: amo a pátria, amo a humanidade. Parece um cinismo supremo. Para comigo mesmo tenho um pudor em dizê-lo. Só aqui lh'o registo sobre papel, acanhadamente ainda assim, para que n'alguma parte fique escrito. Sim, fique aqui escrito que amo a pátria funda, (...) doloridamente.Seja dito assim sucinto, para que fique dito. Nada mais.Não falemos mais. As coisas que se amam, os sentimentos que se afagam guardam-se com a chave d'aquilo a que chamamos «pudor» no cofre do coração. A eloquência profana-os. A arte, revelando-os, torna-os pequenos e vis. O próprio olhar não os deve revelar.Sabeis decerto que o maior amor não é aquele que a palavra suave puramente exprime. Nem é aquele que o olhar diz, nem aquele que a mão comunica tocando levemente n'outra mão. É aquele que quando dois seres estão juntos, não se olhando nem tocando os envolve como uma nuvem, que lhes (...)Esse amor não se deve dizer nem revelar. Não se pode falar dele. "Fernando Pessoa, 'Inéditos'
23
Abr16

D.M.L - "A Verdadeira Filosofia de Vida"

João Jesus e Luís Jesus
"Trabalhar com nobreza, esperar com sinceridade, sentir as pessoas com ternura, esta é a verdadeira filosofia.
1 - Não tenhas opiniões firmes, nem creias demasiadamente no valor das tuas opiniões.2 - Sê tolerante, porque não tens certeza de nada.3 - Não julgues ninguém, porque não vês os motivos, mas sim os actos.4 - Espera o melhor e prepara-te para o pior.5 - Não mates nem estragues, porque não sabes o que é a vida, excepto que é um mistério.6 - Não queiras reformar nada, porque não sabes a que leis as coisas obedecem.7 - Faz por agir como os outros e pensar diferentemente deles. "Fernando Pessoa, 'Anotações de Fernando Pessoa (sem data)'
23
Abr16

D.M.L - "Sonhar é preciso"

João Jesus e Luís Jesus

Sem sonhos, as pedras do caminho tornam-se montanhas, os pequenos problemas são insuperáveis, as perdas são insuportáveis, as decepções transformam-se em golpes fatais e os desafios em fonte de medo.Voltaire disse que os sonhos e a esperança nos foram dados como compensação às dificuldades da vida. Mas precisamos de compreender que os sonhos não são desejos superficiais. Os sonhos são bússolas do coração, são projectos de vida. Os desejos não suportam o calor das dificuldades. Os sonhos resistem às mais altas temperaturas dos problemas. Renovam a esperança quando o mundo desaba sobre nós.John F. Kennedy disse que precisamos de seres humanos que sonhem o que nunca foram. Tem fundamento o seu pensamento, pois os sonhos abrem as janelas da mente, arejam a emoção e produzem um agradável romance com a vida.Quem não vive um romance com a sua vida será um miserável no território da emoção, ainda que habite em mansões, tenha carros luxuosos, viaje em primeira classe nos aviões e seja aplaudido pelo mundo.Precisamos de perseguir os nossos mais belos sonhos. Desistir é uma palavra que tem de ser eliminada do dicionário de quem sonha e deseja conquistar, ainda que nem todas as metas sejam atingidas. Não se esqueça de que você vai falhar 100% das vezes em que não tentar, vai perder 100% das vezes em que não procurar, vai ficar parado 100% das vezes em que não ousar andar.Como disse o filósofo da música, Raul Seixas: "Tenha fé em Deus, tenha fé na vida, tente outra vez..." Se você sonhar, poderá sacudir o mundo, pelo menos o seu mundo...Se você tiver de desistir de alguns sonhos, troque-os por outros. Pois a vida sem sonhos é um rio sem nascente, uma praia sem ondas, uma manhã sem orvalho, uma flor sem perfume.Sem sonhos, os ricos ficam deprimidos, os famosos aborrecem-se, os intelectuais tornam-se estéreis, os livres tornam--se escravos, os fortes tornam-se tímidos. Sem sonhos, a coragem dissipa-se, a inventividade esgota-se, o sorriso vira um disfarce, a emoção envelhece.Liberte a sua criatividade. Sonhe com as estrelas, para poder pisar a Lua. Sonhe com a Lua, para poder pisar as montanhas. Sonhe com as montanhas, para pisar sem medo os vales das suas perdas e frustrações.Apesar dos nossos defeitos, precisamos de ver que somos pérolas únicas no teatro da vida e compreender que não existem pessoas de sucesso ou pessoas fracassadas. O que existe são pessoas que lutam pelos seus sonhos ou desistem deles.Augusto Cury, in 'Nunca Desista dos Seus Sonhos'

23
Abr16

D.M.L - Caminho da Manhã

João Jesus e Luís Jesus
"Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles escorre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível. " 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Livro Sexto"

23
Abr16

D.M.L - Margarida Rebelo Pinto

João Jesus e Luís Jesus

“Podias ter-me dito que ias sair da minha vida. A paixão é mesmo isto, nunca sabemos quando acaba ou se transforma em amor, e eu sabia que a tua paixão não iria resistir à erosão do tempo, ao frio dos dias, ao vazio da cama, ao silêncio da distância. Há um tempo para acreditar, um tempo para viver e um tempo para desistir, e nós tivemos muita sorte porque vivemos todos esses tempos no modo certo. Podias ter-me dito que querias conjugar o verbo desistir. Demorei muito tempo a aceitar que, às vezes, desistir é o mesmo que vencer, sem travar batalhas. Antigamente pensava que não, que quem desiste perde sempre, que a subtracção é a arma mais cobarde dos amantes, e o silêncio a forma mais injusta de deixar fenecer os sonhos. Mas a vida ensinou-me o contrário. Hoje sei que desistir é apenas um caminho possível, às vezes o único que os homens conhecem. Contigo aprendi que o amor é uma força misteriosa e divina. Sei que também aprendeste muito comigo, mais do que imaginas e do que agora consegues alcançar. Só o tempo te vai dar tudo o que de mim guardaste, esse tempo que é uma caixa que se abre ao contrário: de um lado estás tu, e do outro estou eu, a ver-te sem te poder tocar, a abraçar-te todas as noites antes de adormeceres e a cada manhã ao acordares. Não sei quando te voltarei a ver ou a ter notícias tuas, mas sabes uma coisa? Já não me importo, porque guardei-te no meu coração antes de partires. Numa noite perfeita entre tantas outras, liguei o meu coração ao teu com um fio invisível e troquei uma parte da tua alma com a minha, enquanto dormias.”

Margarida Rebelo Pinto
23
Abr16

D.M.L - Sara Ana Macedo Afonso

João Jesus e Luís Jesus

"Esperança! Ainda não nasci, Mas a minha mãe diz-me que estamos em tempo de guerra. O sol já não aparece, Vivemos debaixo de um nevoeiro denso e frio, Parecemos almas penadas. Andamos nus, feios e sonolentos. Deus, partiu! Cansado, desiludido, completamente petrificado, Não aguentou ser chamado de tantos nomes, do invocarem em vão tantas vezes, De usarem o seu nome para actos bárbaros. E partiu, simplesmente… A minha mãe diz que já não há livros, nem música. Já ninguém trabalha, não há escola. Ninguém governa, não há presidentes. Cada um por si, e a fome por todos… Os velhos ficaram esquecidos, os jovens cegaram! O respeito, Ainda não sei bem o que isso é, mas a minha mãe diz que já não existe, E que já nem se lembra o que é, por isso nunca me poderá ensinar. A liberdade, Já não faz sentido, apenas existe medo. Muito medo. Já não é seguro andar na rua. Já não há risos e doces. Alguns desistiram de viver, entregando-se à loucura. Entregando-se à demência. Empunham armas e bombas, espalhando o pânico e o horror. A minha mãe nem sabe como eu ainda sobrevivo dentro dela. Sinto-a a chorar baixinho, a esforçar-se para não se esquecer da sua humanidade. Todos os dias abraça o meu pai, reza a Deus para que ele volte. Todos os dias abre os olhos e sorri para mim. Sinto-a a chorar de medo, de fraqueza, de dor. A minha mãe nem sabe como eu ainda sobrevivo dentro dela. Mas eu sei… Ela ainda tem esperança!"

Sara Ana Macedo Afonso

23
Abr16

D.M.L - "A Vida de um Livro"

João Jesus e Luís Jesus

"A Vida de Um Livro"

Acredito que a vida de um livro enquanto está nas mãos do autor não é mais importante do que quando está nas mãos do leitor.

O leitor é quase sempre um autor ele próprio. É ele que dá significado às palavras e por isso até acho muito interessante quando as pessoas me vêm apontar coisas que não eram minha intenção, mas que de fato estão lá. E há muitas outras coisas que foram minhas intenções e que nunca ninguém me referiu, e no entanto também estão lá.

Se calhar alguém reparou nelas ou ainda vai reparar. Tudo o que um leitor leia num livro é legítimo porque nessa fase o leitor é tudo, é ele que faz o livro.

José Luis Peixoto
23
Abr16

D.M.L - "Ligada a Ti"

João Jesus e Luís Jesus

"Ligada a ti"

Acordei. Numa manhã chuvosa, desengonçada, agreste e triste como as dos últimos dias, talvez até o tempo adivinhasse a reviravolta que a minha vida ia dar. Mal olhei lá para fora: para as ruas despidas de vida, de sol e de encanto, negras como o meu olhar, a força com que a chuva caía e batia na janela fez-me logo recordar a discussão que tinha tido na noite anterior com o Zé Maria. Daquelas discussões que já não tínhamos desde os tempos de namoro, onde não ficou nada por dizer: dissemos tudo e não dissemos nada. O que sentíamos um pelo outro perdeu-se no meio de tanta culpa, de tantas palavras frias e vazias e de tanto fracasso naquilo que tanto nos unia. E a magia que acabou por se desvanecer do nosso conto de fadas. Sento-me à mesa, penso e choro enquanto encho a chávena de café e faço duas torradas com manteiga; o salgado das lágrimas borrata a maquilhagem acabada de colocar que disfarça as olheiras profundas e a pele baça e sem graça. Agora sem o Zé Maria não consigo sentir-me bonita; antigamente, arranjava-me porque me sentia bonita, atraente, sedutora, e o Zé Maria reparava nisso e elogiava-me a toda a hora. Agora só o faço por obrigação, porque tenho que ir trabalhar e sou forçada a estar apresentável para poder liderar a empresa, de resto sinto-me um verdadeiro patinho feio no corpo de um cisne. Pego no tablet e despacho o correio, a empresa não pode parar no meio do caos que é a minha vida. Hoje tenho um dia preenchido, sorrio; pelo menos não penso no Zé Maria. Há dois dias que ele não dá notícias, mal tenho dormido com a angústia e o desespero que sinto por não saber aonde é que ele está e pior ainda do que isso: com quem está; saiu de casa a meio da noite – sem dizer nada –, levou duas malas com roupa e mais algumas coisas e assim lhe perdi o rasto. Sempre ouvi dizer aos meus pais que ao longo da nossa vida vai haver sempre pessoas a quem temos a plena noção de que vamos ficar ligados para sempre, eu sentia isso pelo Zé Maria. O nosso amor foi amor à primeira 13081659_970815413005758_506526457_nvista, ainda em plena adolescência, apaixonei-me pelo seu jeito de ser, pelo seu sorriso, pela forma como ele se dava e dedicava às pessoas. Pelas inúmeras vezes que me fazia sorrir, pelas conversas que tínhamos, por tudo o que partilhávamos; por isso, não demorou muito tempo até ele me pedir em namoro. Foram os dias mais felizes da minha vida, o Zé Maria era tão diferente: atencioso, preocupado, dedicado, aventureiro; viajamos imenso juntos, jantávamos fora, íamos ao cinema. Era a alma gémea perfeita, o Zé Maria era um homem imprevisível que gostava de me surpreender e de me mimar com pequenos detalhes quando eu menos esperava, o que me deixava sempre embevecida e ainda mais apaixonada por ele. Eu sabia que no dia em que alguma coisa menos boa nos acontecesse, eu continuaria ligada a ele para sempre, ele iria marcar-me para toda a vida, cada fragmento dele iria ficar comigo para sempre. O que de facto aconteceu: ainda sinto o aroma do perfume dele pela casa e em mim, a suavidade e doçura do seu corpo e das suas mãos no meu, o tom de voz, aquele olhar intenso sobre mim. E isso não se esquece nunca, fica para sempre. Nos últimos dias, o Zé Maria mudou a sua maneira de ser e estar, sentia-o mais afastado de mim, mais ausente, já não me tocava nem me olhava da mesma maneira, já não me elogiava, já não trocávamos gestos de amor e carinho, mal jantávamos juntos e as conversas que tínhamos reduziam-se ao mínimo. Andava sempre maldisposto, cansado, aborrecido, se eu lhe perguntava se se passava alguma coisa, ele fazia de tudo para me evitar. O que me deixava triste e desagradada, desiludida, sabia que o trabalho na empresa me absorvia o tempo todo, e que já não lhe dedicava o tempo e a atenção que ele tanto merecia; no entanto, esperava – da parte dele – um pouco mais de compreensão e paciência. Não imaginava que ele me fosse fazer isto, que me abandonasse assim e que fizesse por esquecer tudo aquilo que construímos juntos. Segui com a minha vida para a frente, mesmo sentindo uma dor aterrorizadora no coração, comecei a sair mais com os meus colegas de trabalho, a aproximar-me do Luís – que desde que passei a chefiar a empresa sempre me tentou cortejar, mas eu era fiel ao Zé Maria e recusei sempre os seus ataques de sedução; agora arrependo-me, devia ter aproveitado mais a vida e não ter dado tanto de mim ao Zé Maria. Afinal de contas, eu para ele não tive valor nenhum; a nossa relação por muito cúmplice e forte que tenha sido, não significou nada –, começamos a tomar café juntos depois do trabalho. Algum tempo depois começamos a jantar um em casa do outro, a sair à noite, até surgir aquela atracção física e emocional típica. Envolvemo-nos e reaprendi o que é sentir felicidade plena, o que é ser feliz. Acordei. Numa manhã solarenga, vesti o meu vestido vermelho, por cima do joelho, maquilhei-me, calcei os sapatos beges de salto alto, penteei-me e fui para a sala. Sentei-me à mesa, onde me esperava um ramo de rosas vermelhas e um cartão. Peguei no ramo, cheirei as flores e deixei-me envolver pelo seu aroma apaixonado, fui coloca-las numa jarra na cozinha. Regressei à sala e à mesa, peguei no envelope e li o bilhete; entretanto ele chega, sorri e beija-me nos lábios, tomamos o pequeno-almoço juntos e depois saímos para o trabalho. Não dá para expressar melhor o que sinto… Passaram quatro meses, um dia o Zé Maria ligou-me – já eu tinha praticamente refeito a minha vida –, não estava mesmo nada à espera da sua chamada. De voz embargada disse-me que tinha plena consciência que tinha cometido o maior erro da sua vida, que sabia que tinha acabado por perder-me. Explicou-me que tinha sentido necessidade de se afastar para pensar e tomar decisões, para fazer uma vida diferente, para recarregar as energias; percebi que a minha vida profissional sempre preenchida tinha feito com que ele se cansasse da nossa relação, de eu não ter tempo nem espaço para ele e para nós. No entanto, disse-me também que este tempo em que esteve longe de mim lhe tinha custado imenso, que tinha sentido imensas saudades minhas e que tinha percebido que por mais que tentasse afastar-se de mim, isso iria ser sempre impossível, porque eu estaria sempre ligada a ele, haveria sempre detalhes meus que iriam sempre fazer parte dele, da sua pessoa, da sua vida, da sua existência. Sorri, afinal de contas, parecia que estávamos em sintonia; pediu-me uma segunda oportunidade, um recomeçar do zero, fiquei renitente e em silêncio, não sabia o que dizer e o que pensar, prometi pensar no assunto. Hoje estamos de novo juntos, percebemos que fazemos falta um ao outro, que não sabemos viver na nossa ausência; por isso decidimos dar mais uma oportunidade ao nosso amor e à nossa relação. Estamos a recomeçar tudo de novo e estou feliz. Quanto ao Luís, recebeu uma proposta irrecusável de trabalho no estrangeiro, percebemos que podíamos manter a amizade, mas que não podíamos continuar a alimentar o nosso amor porque a distância ia fazer com que ele acabasse por se desvanecer com o tempo. Há relações que funcionam e outras que não devem ir além da sua simplicidade. Realmente há sempre pessoas a quem ficamos ligados para sempre, de uma maneira ou de outra; quer queiramos, quer não, de uma forma que nunca saberemos explicar e isso faz com sejamos capazes de reavivar o melhor que há em nós.
Ana Ribeiro

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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